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Paradoxos da Relação Brasil X China

Há muitos anos. Em trabalho acadêmico, prevíamos que a China dominaria o mundo e que o tempo para essa ocorrência dependeria, basicamente, dos fatores educacionais e político. Como estes só foram reengenheirados pela China ao final dos anos 70, retardou o processo, hoje em curso acelerado.

O que nos levou a essa previsão  para um país em atraso intenso na época foram basicamente, três fatores:

1) O contingente populacional e suas necessidades, em crescimento geométrico;

2) A incapacidade de os recursos naturais atenderem à crescente demanda potencial, o que forçaria a China a buscar outros territórios;  

3) A histórica prática estratégica(ou de estratagemas), milenarmente cultivada e praticada naquela Nação.

O liberalismo econômico, que tem conveniências, nem sempre se desenvolve com a desejável simetria e responsabilidade social, principalmente nos processos globalizados. Nas relações atuais, a  China sabe bem onde quer chegar, o que quer conquistar, o que pode e quer ceder, qual é o seu potencial e quais as suas limitações patrimoniais. 

Comparativamente com o Brasil, as diferenças patrimoniais podem assim ser resumidas:

Patrimônio

China (US$Trilhões)

Brasil (US$ Trilhões)

Total 7 7
Construído 1,1 1,4
Humano 5,2 2,5
Natural 0,7 3,1


Vê-se, então, o grande diferencial do Patrimônio Humano, que poderá ser potencializado pela educação, a favor da China. Por outro lado, a China tem no Patrimônio Natural o grande limitador. Aí, então, o Brasil passa a ser seu foco de atenção. Recursos minerais, inclusive água, terra fértil e mercado consumista, são elementos estratégicos para o desenvolvimento da China.

O contingente populacional chinês, com o provável crescimento de consumo pela melhoria da renda, e o excedente econômico pelo significativo saldo da balança comercial, são dois fatores que o mundo econômico mira e busca, nem sempre fundado em sólida estratégia.

Mas ter sucesso em longo prazo na China exige atenção e estratégia, pois lá ainda são praticados seus estratagemas milenares, valendo destacar os seguintes, históricos, tirados da literatura:

  • Enganar o Imperador e atravessar o mar
  • Mel na boca, espada na cinta.
  • Atrair o tigre para que desça da montanha
  • Atirar um tijolo para atrair uma jade
  • Para prender os bandidos, primeiro captura-se o chefe.

O Governo brasileiro, pleiteando receber o apoio a uma cadeira na ONU, de importância apenas relativa, apressada e ingenuamente  reconheceu a China como “Economia de Mercado”. Trocou – e não recebeu – jade por tijolo, deixando potencial ameaça às relações futuras, quando precisar apoiar-se em barreiras de proteção comercial, o que já se prenuncia.

A China tem diferenciais vantajosos inatingíveis pela maioria dos setores industriais do mundo, exceto os derivados de recursos naturais de que não disponha. Sua base de remuneração do trabalho, a baixa carga tributária e de juros, a informalidade e a pirataria ameaçam as indústrias do mundo e, em especial do Brasil, detentor da mais alta taxa de juros do planeta e carga tributária entre as mais elevadas. Isto destrói o poder competitivo, mesmo com a mais alta produtividade.

Alguns setores, como calçados, têxteis e confecções, ferramentas, plásticas e outros, já estão seriamente ameaçados, devendo afetar o nível de emprego. O automobilístico está de olho.

A alternativa da reciprocidade – explorar o mercado chinês – acessível a alguns setores, é inacessível à maioria, pelos diferenciais competitivos estruturais e pelas salvaguardas estratégicas, já que lá as regras, as normas, os contratos e a legislação não são rigidamente respeitados, quando inconvenientes aos interesses locais. A opção de instalar lá as fábricas de componentes para que as unidades daqui e de outras partes do mundo sejam meras montadoras é uma alternativa. Porém, tem também seus riscos.

A China tem pré-definidos empreendimentos incentivados, tolerados e impedidos.

Incentiva investimentos estrangeiros (IED) para novas tecnologias agrícolas e desenvolvimento agrícola; para infraestrutura (energia, transporte); aporte de tecnologias novas e avançadas para melhorar a utilização dos seus recursos; aumento da exportação de produtos para mercados sofisticados; que ajude a desenvolver as regiões centro e oeste do País; que cumpra as leis e regulamentações administrativas.

Restringe  o IED que pretenda explorar os recursos domésticos; que concorram com as tecnologias domésticas no atendimento à demanda interna; nos monopólios estatais.

Proíbe o IED que ameace a segurança nacional ou o benefício público social; polua o ambiente ou prejudique a saúde das pessoas; afete negativamente os recursos do solo; aproveite a vantagem de tecnologias exclusivas da China e quando há proibição legal.

As parcerias e alianças, que poderiam ser uma alternativa de Co-opetição, na prática, têm sofrido forte erosão, diante dos muitos casos de simples captação de know-how, como tem sido manifestado por grande número de empresas, principalmente americanas lá instaladas.

A leitura de que a China só faz produto de baixa qualidade já está ultrapassada. A mais recente investida daquele País é a captação de tecnologia levando profissionais de todas as partes do mundo, detentores de know-how, com pagamento de altos salários, porém, até sugar a tecnologia. Assim procedeu com a moda italiana, com os calçados brasileiros, curtumes e outros. Como medida prática (estratégia) para acelerar a mudança de imagem e entrar em mercados sofisticados, a China está adquirindo, a altos custos, marcas mundialmente reconhecidas.

As condições da estrutura produtiva chinesa, aliadas à manutenção da moeda desvalorizada, devido ao regime cambial fixo e ao agressivo interesse exportador facilitado por agentes nos diversos países do mundo, além da pirataria institucionalizada, estão tornando o mundo dependente de seus excedentes econômicos, sob a forma de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED), dificultando ações de reação pelos países endividados, visto que uma ameaça de retirada dos seus investimentos poderia, em muitos países, fazer  trepidar a economia. Nos EUA, por exemplo, enquanto a indústria e o Congresso pressionavam por instituir barreira tarifária (27,5%) à importação, as autoridades governamentais, principalmente o FED, e até o BIRD, ficavam cautelosos, cientes do potencial de geração de crise mundial que isto representaria.

De tudo isto resultaria, pelo menos,  uma dúvida, uma pergunta e uma tentativa de  resposta:

Dúvida – A Relação Brasil-China é inconveniente para o Brasil?

Pergunta – Devemos, então, bloquear/romper a relação com a China? O que deveremos fazer?

Tentativa de resposta – A tentativa de resposta subdivide-se em três itens:

  • A relação Brasil-China é paradoxal. É uma oportunidade que traz grandes riscos, especialmente de exaustão dos recursos naturais e de desestruturação de muitos segmentos industriais. Por isso, qualquer compromisso abrangente deve ser precedido de responsável estudo de viabilidade.
  • Não. Não devemos bloquear/romper a relação Brasil-China. Mas precisamos superar a ingenuidade. Não devemos trocar jade por tijolo. Precisamos ter visão de futuro. Ter pressa e calma.
  • Em vista da dimensão e responsabilidade, inclusive de preservação do Patrimônio Natural e tecnológico, a Relação Brasil-China precisa ser tratada na dimensão geopolítica e geoestratégica.

Se isto não for feito, correremos o risco de exaurir nossos recursos sem chegarmos ao desenvolvimento, no verdadeiro conceito, e termos feito apropriação indébita (roubo) das gerações futuras do direito de uma vida digna. No curto prazo, estaremos destruindo, pelas diferenças competitivas, grande parte do parque  produtivo brasileiro, gerando mais desemprego e desgaste social. Se pudermos, devemos cooperar para que aquele País vença seus gigantescos desafios. Porém, desde que o preço não seja a condenação de nossas gerações futuras.

Gostaria  que esta análise não fosse interpretada como um determinismo catastrófico ou como empresário defendendo seu ninho. Não tenho indústria. Mas, como consultor empresarial, percebo as oportunidades e riscos e entendemos que o caminho deverá ser  a Co-opetição, mas, para tanto, são importantes tanto a adequada dimensão como o âmbito e o processo da relação, bem como a redução das disparidades da estrutura econômica, seja de custos ou de câmbio, bem como a firme disposição da modernização empresarial, seja em tecnologia ou gestão. Estratégia será a palavra-chave da empresa brasileira, tanto para aproveitar as oportunidades como para enfraquecer as ameaças.

A Inteligência Co-opetitiva (Estratégia/Mercado/Competição/Co-opetição) será o aliado na transição e no desvio do Futurismo Malthusiano (1798), à época muito contestado mas hoje realista, porque, além dos 6,5 bilhões de pessoas crescendo geometricamente, embora a menores taxas, leva à exaustão dos recursos naturais, que o Brasil até 2005 os entregava ” a preços de banana” como diz a gíria.

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